:: Publicado em 28.8.2007 pelo jornal "Gazeta do Iguaçu"
"No mundo atual, investe-se 5 vezes mais em remédios para virilidade masculina e silicone para mulheres do que na cura do Mal de Alzheimer. Daqui a alguns anos, teremos velhas de seios grandes e velhos de pau duro, mas eles não se lembrarão para que servem." A frase é atribuída a Drauzio Varela em diversas páginas na internet. Não sei se algum dia ele disse isso ou não, mas não deixa de ser verdade.
As indústrias farmacêuticas e de produtos de estética preferem gastar dinheiro em pesquisas na descoberta de produtos para a manutenção da "beleza" corporal e da ereção do que na busca por medicamentos para a cura de determinadas doenças. Um exemplo: a malária. É uma das doenças que mais mata as pessoas pobres. No entanto, há pouco investimento em pesquisas de medicamentos.
Certo que a Alzheimer, citada por Dráuzio, é uma doença "democrática" —atinge todas as classes sociais. Mas tem um porém: é "preconceituosa", é doença de velho. O preconceito já está assim na referência, "velho" e não idoso ou idosa.
Não dá para comparar o volume de pesquisas que são feitas para a descoberta de medicamentos da malária às pesquisas relacionadas a Alzheimer. Em relação a outras, é pouco, mas é superior ao da malária. Recebe mais recursos porque ela atinge todas as classes sociais e cada vez mais aumenta o número de idosos e idosas. Portanto, cada vez mais aumentará o numero de doentes e, conseqüentemente, o lucro.
O mal ou doença de Alzheimer (sobrenome de Alois, o médico que descreveu pela primeira vez a doença) teve o primeiro caso relatado em 1906, no 37º Encontro de Psiquiatras do Sudeste da Alemanha, há pouco mais de 100 anos. Já a malária é milenar.
A malária é uma doença transmitida por mosquitos. Cerca de 40% da população mundial vive em área de risco de transmissão da malária. Só neste ano, a doença atingirá 500 milhões de pessoas e matará quase 3 milhões. No Brasil, sua presença é registrada desde a segunda metade do século XVI, tornando-se um grave problema de saúde pública a partir do século XIX, com a exploração da borracha na Amazônia. Em 2005, só na Amazônia Legal houve 600.952 casos.
A indústria farmacêutica gasta quase 40 bilhões de dólares por ano em pesquisas de novos medicamentos. Com tamanho investimento esperava-se aumento do número de medicamentos para combater esse flagelo. Mas, pelo fato de a malária acometer pessoas pobres e na maioria negras, isso não acontece.
Hoje, estas partes desoladas e esquecidas do mundo estão sendo lembradas pelos grandes laboratórios farmacêuticos em suas pesquisas, não para desenvolver medicamentos para tratar as doenças deles, mas para serem cobaias de pesquisas. Por exemplo, a Glaxosmithline (GSK), nos últimos anos, realizou mais da metade dos seus testes de drogas novas nesses países.
Estão lá para fazer experimentos em cobaias humanas, que, por serem pessoas pobres e desinformadas, não têm a informação adequada do que tomam: para quê serve e os seus efeitos. Lá são feitas as pesquisas dos medicamentos destinados a pessoas mais saudáveis de outros lugares, portadoras de doenças cardíacas, artrite, osteoporose, etc.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, um mercado de 200 milhões de dólares é o mínimo que as indústrias levam em consideração para fazer a pesquisa de determinado medicamento. Sem este mercado, não existe pesquisa. É por isso que sobre a malária não há pesquisas em nível suficiente. Já para Alzheimer, uma doença que atinge ricos e pobres, o mercado é superior e com perspectivas, pelo envelhecimento da população, de maiores lucros.
Também recebem muito investimento em pesquisa os produtos de beleza e rejuvenescimento. Segundo a ONU, para alcançar a satisfação universal das necessidades em matéria sanitária, não custaria mais de 13 bilhões de dólares, ou seja, apenas o que os habitantes dos EUA e da União Européia gastam por ano em consumo de perfume.
Parafraseando a fala atribuída a Drauzio Varela, parte da civilização caminha para ter o seio grande, ereção permanente, estar perfumada, mas sem saber para que serve. E o Mal de Alzheimer ainda pode ajudar.
Dr. Rosinha, deputado federal (PT-PR),
vice-presidente do Parlamento do Mercosul.
dr.rosinha@terra.com.br
www.drrosinha.com.br