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l  BRASIL, COMUNICAÇÃO, DESTAQUES, SAÚDE  l   09/09/2011

#VejaFazMalASaude: Irresponsável, revista ‘Veja’ exibe remédio para diabetes como ‘emagrecedor milagroso’

A revista 'Veja' faz mal a saúde. Literalmente.

Em sua última edição, datada de 7/9/2011, a revista semanal traz na capa a manchete: 'Parece Milagre!'

Eis a chamada que abre a reportagem de sete páginas: "Victoza, um remédio recém-lançado para o tratamento do diabetes, revela-se grande arma na luta contra o excesso de peso também para pessoas sem a doença. Além de fazer emagrecer, ele oferece brandos e passageiros efeitos colaterais."

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) condenou a iniciativa da revista 'Veja'.

"A Anvisa não reconhece a indicação do Victoza para qualquer utilização terapêutica diferente da aprovada e afirma que o uso do produto para qualquer outra finalidade que não seja como anti-diabético caracteriza elevado risco sanitário para a saúde da população", diz trecho de nota oficial publicada pela agência. O documento [íntegra abaixo] lista, entre os eventos adversos associados ao medicamento, hipoglicemia, dores de cabeça, náusea e diarréia, além de outros riscos como: pancreatite, desidratação e alteração da função renal e da tireóide.

A Associação para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) também criticou 'Veja'.

"Achamos, no mínimo, temerária a propaganda do uso indiscriminado deste medicamento para emagrecer", diz nota divulgada pela Abeso [íntegra abaixo]. "Temos que ter um pouco mais de paciência e de bom senso."

Em texto publicado no Observatório da Imprensa, intitulado "O O milagre da irresponsabilidade", a jornalista Ligia Martins de Almeida sentencia: "O que Veja deixou claro, com essa matéria, é que a responsabilidade da imprensa com seus leitores nem sempre vem em primeiro lugar. A vontade de causar impacto (ou talvez de atender os interesses de seus anunciantes) às vezes fala mais alto".

 

A seguir,  a primeira das sete páginas da matéria de Veja e as notas oficiais da Anvisa, da Abeso, além do texto do Observatório da Imprensa.

 

 

 

Anvisa alerta sobre o risco do uso inadequado do produto Victoza

O Victoza é um produto biológico, ou seja uma molécula de alta complexidade, de uso  injetável, contendo a substância liraglutida, aprovado pela Anvisa para comercialização no Brasil em março de 2010. Para o registro do produto na Anvisa, foram apresentados estudos clínicos que comprovaram eficácia e segurança do produto para uso específico como tratamento de diabetes tipo 2.

Portanto, a indicação de uso do medicamento aprovada pela Anvisa é como “adjuvante da dieta e atividade física para atingir o controle glicêmico em pacientes adultos com diabetes mellitus tipo 2, para administração uma vez ao dia como monoterapia ou como tratamento combinado com um ou mais antidiabéticos orais (metformina, sulfoniluréias ou uma tiazollidinediona), quando o tratamento anterior não proporciona um controle glicêmico adequado”.

Nos estudos clínicos do registro e nos relatórios de segurança periódicos apresentados a Anvisa, foram relatados eventos adversos associados ao Victoza, sendo os mais frequentes: hipoglicemia, dores de cabeça, náusea e diarréia. Além destes eventos destacam-se outros riscos, tais como: pancreatite, desidratação e alteração da função renal e da tireóide.

A única indicação aprovada atualmente para o medicamento é como agente antidiabético. Não há, até o momento, solicitação na Anvisa por parte da empresa detentora do registro de extensão da indicação do produto para qualquer outra finalidade. Não foram apresentados a Anvisa estudos que comprovem qualquer grau de eficácia ou segurança do uso do produto Victoza para redução de peso e tratamento da obesidade.

A Anvisa não reconhece a indicação do Victoza para qualquer utilização terapêutica diferente da aprovada e afirma que o uso do produto para qualquer outra finalidade que não seja como anti-diabético caracteriza elevado risco sanitário para a saúde da população.

 

Fonte: Anvisa


* * *

 

Novo Emagrecedor – ABESO esclarece a população sobre o liraglutide, medicamento que inibe o apetite.

AINDA NÃO!! 

Esta semana, a reportagem de capa da revista VEJA é sobre um novo medicamento antidiabético que faz emagrecer. O liraglutide (VICTOZA ) é um fármaco sintético que tem ação semelhante ao  hormônio  humano glucagon-like peptídeo (GLP-1). Tem ação pancreática na modulação da insulina e glucagon e auxilia no tratamento do Diabetes  Mellitus tipo 2. Além destes efeitos, também têm ação sacietógena, agindo tanto no sistema nervoso central (aumentando a saciedade e reduzindo a fome) como no trato digestivo, reduzindo o esvaziamento gástrico e a motilidade intestinal (o que também aumenta a saciedade). Desta forma, os diabéticos em uso do medicamento perdem peso porque comem menos.

Este medicamento foi lançado recentemente no Brasil para o tratamento de Diabetes do tipo 2.  Os estudos em obesos não diabéticos de fase I e II mostraram que o medicamento tem poucos efeitos colaterais: cefaleia, náuseas e vômitos nas primeiras semanas de uso, efeitos estes que se atenuam com o tempo. A perda de peso é significativa (em média 7kgs).  Os estudos de fase III estão sendo realizados em 27 países, inclusive no Brasil. No entanto, diferente do que está escrito na reportagem, os pacientes que entraram neste estudo são obesos (IMC>30kg/m2)  ou com IMC >27kg com complicações como hipertensão arterial, dislipidemia e pré-diabetes. Os pacientes apenas com sobrepeso, sem comorbidades, foram excluídos do estudo. Todos os participantes estão sendo submetidos a uma dieta hipocalórica e reforços para aumentar a atividade física. Estes estudos estão no início e vão demorar pelo menos mais um ano.  Só após o término deles é que a medicação pode ser submetida às agências sanitárias para receber a permissão de comercialização (no Brasil e no resto do mundo).

É importante salientar que:

1.      Apesar de os resultados em relação à perda de peso serem promissores, o liraglutide não é milagroso. Há necessidade de mudanças comportamentais (dieta e exercícios).

2.     O custo da medicação limita seu uso até pelos diabéticos (>250,00 reais por mês).

3.     Os efeitos adversos da medicação poderão ser mais bem avaliados a partir de seu lançamento, no pós-marketing (será utilizado por milhares de pacientes diabéticos).

4.     Não deve ser prescrito para o tratamento de obesidade em pacientes não diabéticos (uso off- label), até que os estudos específicos para obesidade sejam encerrados. E não é indicado para pacientes com sobrepeso sem complicações. O medicamento não foi submetido à aprovação das agências sanitárias para o tratamento de obesidade ou sobrepeso em indivíduos sem diabetes.

Achamos, no mínimo, temerária a propaganda do uso indiscriminado deste medicamento para emagrecer. Está provocando uma verdadeira corrida aos consultórios médicos para a prescrição da medicação. Isto ocorreu recentemente com o Rimonabanto (Acomplia) – a pílula da barriga. A prerrogativa da prescrição da medicação era do paciente (ele já chegava ao consultório médico pedindo o medicamento), e não do médico. E também algum tempo atrás com o Orlistate (Xenical), cujo uso foi banalizado graças a propagandas como “se você quer perder alguns quilinhos, procure seu médico”. 

Isto não pode voltar a acontecer.  Temos que ter um pouco mais de paciência e de bom senso. 

Dra Rosana Bento Radominski
Presidente da Associação para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica – ABESO

 

Fonte: Abeso


* * *

 

LEITURAS DE VEJA

O milagre da irresponsabilidade

Por quanto a revista Veja poderia ter vendido – se usasse essa prática – a capa “Parece milagre!”, a respeito de um novo remédio que faz emagrecer entre sete e 12 quilos em apenas cinco meses (edição nº 2233, data de capa de 7/9/2011)?

Na capa, uma ilustração no melhor estilo “antes e depois”. De um lado, a moça mais gorda, braços cruzados para esconder as gordurinhas indesejáveis. Do outro, a mesma jovem, magrinha e sorridente, exibindo um corpo invejável. As duas – ou melhor, a mesma mulher, antes e depois – se apoiam na agulha (o próprio “produto”) usada para aplicar o medicamento.

A foto de capa, que comprova a tese da imagem que vale por mil palavras, é apenas o começo de um texto que combinaria mais com o estilo de um publi-editorial. A matéria começa afirmando: “É grande a probabilidade de você, leitor, se identificar com a história a seguir”. E termina cravando que a substância usada no novo remédio “pode ser considerada a bala de prata contra o excesso de peso”.

Entre as duas frases, sete páginas com entrevistas de endocrinologistas fazendo cálculos sobre o novo remédio milagroso, pessoas que perderam peso e, para não dizer que só se trata de dieta, um parágrafo falando do número de diabéticos no Brasil e no mundo e uma frase resumindo os efeitos colaterais do remédio: náusea e vômitos.

Náuseas e vômitos

Não é a primeira vez que Veja dedica seu precioso espaço para falar de dietas milagrosas, algumas vezes até tentando alertar os leitores para os perigos de determinadas práticas. Mas talvez seja a primeira vez que a revista usa sua capa para divulgar um produto de forma tão descarada.

O sucesso da matéria pode ser comprovado no site Doce Vida, especializado na venda de produtos para diabéticos, que já no domingo (4/9) trazia a reprodução da capa de Veja com a matéria sobre o remédio. O medicamento, aliás, só pode ser vendido com receita médica e custa entre 343 e 350 reais nos sites de farmácias especializadas em vendas online.

O mesmo Doce Vida, nos comentários de leitores, mostra que o medicamento, embora indicado para diabetes, vai fazer sucesso mesmo é entre as sonhadoras que lutam para perder peso. Entre as manifestações de leitoras (anteriores ao lançamento comercial do remédio), os pedidos eram para serem avisadas de quando o produto estaria à venda, do que poderia ser feito para o governo interferir e fazer o laboratório baixar o preço (já que é um remédio para diabetes), e por aí afora.

Com a matéria de Veja, certamente a procura – na internet e nos consultórios de endocrinologistas – vai aumentar muito. E para os desesperados com a perda de peso (quanto mais milagrosa, melhor), pouco importa que a bula do medicamento diga que náuseas e vômitos estão entre os efeitos colaterais comprovados e que há risco de pancreatite e surgimento de tumor na tiroide.

Opção discutível

As mulheres – as grandes vítimas da mídia, quando se trata de excesso de peso – serão atingidas diretamente pela mensagem de capa da revista: 12 quilos em cinco meses, e sem dúvida estarão dispostas a enfrentar náuseas, vômitos, desidratação (outro dos efeitos mencionados em um dos artigos médicos da internet, só disponível em inglês) e o alto custo do medicamento.

E os pauteiros e editores da revista – felizes com a repercussão da matéria (porque as matérias desse tipo sempre dão excelentes resultados) – não terão qualquer sentimento de culpa se eventualmente se descobrir que os efeitos do tal medicamento podem ser péssimos para quem não tem problemas com glicemia. Até lá, terão mudado os pauteiros e os editores e os próximos poderão discutir o assunto sem qualquer culpa no cartório.

O que Veja deixou claro, com essa matéria, é que a responsabilidade da imprensa com seus leitores nem sempre vem em primeiro lugar. A vontade de causar impacto (ou talvez de atender os interesses de seus anunciantes) às vezes fala mais alto. Se a matéria fosse um publi-editorial, os fabricantes seriam livres para dizer o que bem entendessem. Em uma matéria produzida pela Redação, é discutível dar o nome de um produto comercial logo nas primeiras linhas e mais ainda dizer ao leitor que ele vai se identificar na história de alguém que usou o tal ou qual medicamento. Tudo sem alertar, em momento algum, que o remédio é novo e ainda não se sabe dos seus efeitos sobre o corpo humano no longo prazo.

***

[Ligia Martins de Almeida é jornalista]

Fonte: Observatório da Imprensa


Leia também:

A Veja e os perigos do Victoza (por Carlos Hotta, no ScienceBlogs)

"[...] 2- efeitos colaterais brandos? 7–40% dos pacientes tiveram náusea, 2–17% tiveram vômitos e 4–18,7% tiveram diarréia. Eles passam, certamente, geralmente em seis semanas. Bom, diga-se que qualquer um que fique com náuseas, vômitos e diarréia por seis semanas está fadado a emagrecer não? Garantindo uma taxa de 20% de eficácia do medicamento só na base dos efeitos colaterais! Milagre![...]"

 

 

Confira no site do próprio fabricante dinamarquês (em inglês):

"[...] Em estudos com animais, Victoza causou tumores da tiróide –incluindo câncer de tireóide– em alguns ratos e camundongos [...]"


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Um Comentário para “#VejaFazMalASaude: Irresponsável, revista ‘Veja’ exibe remédio para diabetes como ‘emagrecedor milagroso’”

  • Emerson disse:

    Vergonha alheia !

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